O mau patrão

bicitaxi

Quando se fala de Cuba uma das discussões mais freqüentes é se nesta realidade na qual vivemos pode ser aplicado o qualificativo “socialista”. Para minha geração, que se criou entre livros de marxismo, manuais de comunismo científico e tomos com os textos de Lenine, torna-se difícil identificar este modelo com o apresentado naquelas obras. Quando alguém me pergunta a respeito digo que nesta Ilha vivemos sob um capitalismo de estado ou – se é que se pode chamar assim – sob um latifúndio de partido… de clan familiar.

Minha teoria tomou forma porque naqueles vetustos livros que me obrigavam a estudar havia uma linha imprescindível para caracterizar uma sociedade como socialista: que os meios de produção estivessem nas mãos dos trabalhadores. Contudo, o que percebo ao meu redor é um Estado omni proprietário, dono das máquinas, das indústrias, da infra-estrutura de uma nação e de todas as decisões que se toma a respeito dela. Um patrão que paga salários baixíssimos e que exige dos seus empregados o aplauso e a incondicionalidade ideológica.

Esse dono avarento agora adverte que não pode continuar dando trabalho a mais de um milhão de pessoas nos setores que constam do orçamento e o empresarial. “Para avançar no desenvolvimento e na atualização do modelo econômico” nos dizem que devem reduzir drasticamente a folha de pagamentos, enquanto abrem apenas espaços pequenos e controlados para trabalhos por conta própria. Até a Central dos Trabalhadores de Cuba – único sindicato permitido no país – informa que as demissões chegarão logo e que devemos aceitá-las com disciplina. Papel triste a quem cabe representar os direitos dos seus filiados frente ao poder e não o contrário.

O que fará o patrão antiquado que possuiu esta Ilha durante cinco décadas quando seus desempregados de hoje se converterem nos inconformados de amanhã? Como reagirá quando a autonomia laborativa e econômica dos trabalhadores por conta própria se converter em autonomia ideológica? O veremos então blasfemar, estigmatizar os prósperos, porque a mais valia – como a cadeira presidencial – só pode ser sua.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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