Lesa urbanidade

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Do edifício número 216 saiu um rangido penetrante segundos antes das paredes se separarem e desabasse o teto. A fachada caiu depois de uma hora da madrugada quando não havia ninguém na calçada. O pó flutuou durante vários dias e grudou na roupa dos curiosos que foram olhar e tirar alguns ladrilhos do monturo de vigas, madeiras e lajotas. A edificação ao lado não sofreu muito e os vizinhos tiraram proveito do desabamento, pois lhes deixou livre uma parede em que poderiam abrir novas janelas. Um ano depois, onde havia a edificação desabada de dois andares, acumula-se o lixo de todo o bairro e os transeuntes urinam nos cantos formados pelas colunas.

Os moradores foram parar num albergue conhecido como Venus, que fica a poucas quadras da estação central de trem. Chegaram alí com a esperança que seria uma estadia curta entre os tabiques e os lençóis pendurados a maneira de paredes. Contudo, estão há mais de 20 anos nos aposentos úmidos cheios de camas apertadas. Seus filhos cresceram alí, namoraram e procriaram enquanto compartilhavam o banheiro coletivo e a cozinha de paredes enegrecidas pelo fuligem.

A princípio acreditaram que os realocariam num lugar melhor, porém os furacões e a deterioração pioraram o fundo habitacional e milhares de pessoas somam-se, cada ano, à lista das vítimas. Com o tempo se esqueceram da sensação de abrir a porta da casa própria, tirar a roupa numa moradia sem pensar que dezenas de olhos indiscretos olham, tomar uma ducha sem que ninguém bata desesperadamente na porta requerendo sua vez. Esqueceram como se vive fora de um albergue.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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