A outra entrevista

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Não gosto de sair pela vida defendendo-me de ataques, talvez porque passei a maior parte dela sob fogo cruzado da crítica. Aprendí que as vezes é melhor digerir o insulto e seguir adiante, pois denegrir suja mais quem o faz do que a vítima. Contudo, tudo tem um limite. Algo bem diferente é que ponham na minha boca frases que eu não disse, tal como ocorreu com a entrevista publicada por Salim Lamrani em Rebelião. Ao começar sua leitura não notei muito a tergiversação, porém já na segunda parte era impossivel me reconhecer. É certo que a introdução tratava de gerar aversão nos leitores quanto a minha pessoa, porém esse é um direito que cada entrevistador tem, de narrar como vê o objeto de suas perguntas.

A grande surpresa foi constatar – na medida em que o texto avançava – omissões enormes, distorções e até frases inventadas atribuidas a mim. Tudo havia ficado em outra intenção – entre milhares – de me atribuirem posturas que não tenho e afirmações que jamais disse, se não fora porque os meios oficiais cubanos se prepararam, rápidamente, à fazer eco da entrevista rearranjada. Ontem, quando vi o apresentador do mais chato programa da televisão oficial referir-se – sem mencionar meu nome – a uma série de perguntas que “me desnudavam”, comecei a compreender tudo. A razão para a adulteração já não era a precipitação ao transcrever nem o desejo de um jornalista de provar a todo o custo sua hipótese, mesmo que distorcendo para isso as palavras do entrevistado. Algo maior está sendo forjado com esse texto semi-apócrifo e faço agora uma parada no caminho do meu blog para advertir.

Tenho uma memória muito vívida daquela tarde há quase tres meses – curiosamente o senhor Lamrani tardou todo este tempo em tornar pública nossa conversa – e as palavras que trocamos. Recordo suas perguntas estereotipadas e, as vezes desinformadas, sobre nossa realidade que parecem muito pouco com estas – tão documentadas – que ele voltou a redigir para parecer um especialista. Não me caracterizo por responder com monossílabos, daí que me dá trabalho indentificar-me em tanta moderação. Na medida em que a troca que tivemos no hotel Plaza avançava, podia-se notar como a simpatia dele à minha posição aumentava. No final, sentí que todas as barreiras haviam sido derrubadas e ele compreendia que não éramos oponentes, mas sim pessoas que viam um mesmo fenômeno de ópticas diferentes. Um abraço de sua parte me confirmou. Porém, evidentemente, a disciplina à “causa” pôde mais do que sua ética jornalística e o professor da Sorbonne terminou – visivel na segunda parte da entrevista – por adulterar a minha voz. Em seu moderníssimo Iphone minhas frases moderadas deveriam ser como um vírus informático roendo os estereótipos, um chamado para terminar com essa confrontação que pessoas como ele preferem alimentar.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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