Beligerância

 

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Faz um par de meses tive o prazer de falar num hotel de Havana com um jornalista estrangeiro que havia escrito um longo artigo contra mim. A conversa foi muito amena, ainda que o tenha reprovado por haver redigido um texto tão extenso sem entrevistar antes o objeto de sua diatribe, uma pessoa viva e facilmente localizável em Havana. Depois de duas horas de perguntas e respostas nos demos conta que ambos queríamos básicamente o mesmo: um referencial de respeito para nossas ideias. Ele leva a cabo uma cruzada contra os meios hegemônicos imperantes em seu país e eu trato de que os cubanos possam se libertar do monopólio estatal informativo. Visto assim, tratam-se de aspirações similares.

Entre as estratégias mais usadas pelo discurso oficial em Cuba, está a de separar os cidadãos em compartimentos não conectados. Na medida em que cada um se nega a escutar o outro, não podem constatar que têm observações afins sobre sua realidade e desejos confluentes de melhorar o país. Por isso se sataniza o crítico e se impede que os jornalistas oficiais o convidem aos estúdios de televisão para participar desses tediosos paineís onde todos têm o mesmo ponto de vista. Repete-se a tática de pessoas sentadas em frente a uma xícara de café “jogarem de brigar”, confirmando suas afinidades ao invés de aprofundarem suas diferenças. Sempre que escuto denigrir alguém com adjetivos inflamados no estilo de “mercenário” ou “vendilhão da pátria” me precavejo de que o caluniador teme – em seu interior – que num debate não possa deixar de gritar e tenha de argumentar suas ideias. Os que ofendem são, geralmente, os que temem a polêmica sadia por estarem carentes de razões.

Lí com surpresa e otimismo a troca de cartas entre Silvio Rodríguez e Carlos Alberto Montaner, quando dois personagens colocados em lados opostos podem manter uma controvérsia sem apelar ao alarido ou a ameaça, é sinal de que as jogadas de emoção já não funcionam. De imediato temos visto como o cantor e compositor da “utopia” e o “arquiinimigo” do governo começaram a manter correspondência e a debater seus pontos de vista. Pergunto-me se esse é o sinal de partida para que no interior do país um membro do partido comunista possa sentar-se para dialogar com outro que pertence a um grupo de oposição. Estaremos assistindo a derrubada das paredes internas que nos isolaram uns dos outros? Quantos mais estariam dispostos a deixar de lado a injúria e se sentarem para conversar? Quisera crer que sim, que o mero fato de responder à um adversário é a prova de que o respeita, a melhor forma de validar sua existência e seu direito de se pronunciar.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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