Os loucos e os patifes

mazorra_1959

Os loucos são presa facil dos patifes que gritam das esquinas frases dolorosas para aumentar seu delírio. Com dois barquinhos de papel tinhamos um na minha quadra que passava horas numa estranha regata que não o levava à parte alguma. Sua mãe o mantinha calmo a base de benadrilina e diazepam; tudo para não enviá-lo ao armazém da demência que é Mazzorra, o hospital psiquiátrico havaneiro.

 

Na mente daquela senhora estavam as imagens do que havia sido a clínica psiquiátrica da rua Boyeros, com seu terror acumulado e sua depauperação material. O pacientes quase desnudos, as paredes cheias de excrecências humanas e a falta de supervisão, eram o cenário para as piores atrocidades. As fotos haviam sido publicadas nas revistas daquele longínquo 1959. Depois chegaram reportagens pela televisão, lençóis limpos, terapia ocupacional e até murais políticos que mudaram a face do que havia sido o horror. Só que, como já lhes disse, os loucos são presa facil dos patifes.

 

A partir dos anos noventa, com a chegada do período especial, o desvio de recursos atormentou Mazzorra. Os vizinhos das ruas adjacentes estavam bem sortidos por um mercado negro de cobertores, leite, comida, roupa, toalhas e medicamentos que saíam do hospital. Os alí ingressados acreditavam que fazia parte do seu sofrimento que, em cada dia, – como no filme “A luz que agoniza” -  faltassem lâmpadas elétricas nas salas. Foram-lhes subtraindo todo o indispensavel e ninguém notou as janelas quebradas, as privadas entupidas e as camas de pés quebrados. Dessa vez não havia um jornalista autorizado para retratar a miséria.

 

A imprensa oficial não pode esconder, contudo, a morte de 26 pacientes – alguns afirmam que a cifra é próxima dos 40 – por hipotermia e padecimentos associados ao abandono. Foram-se desta vida nuns dias frios de janeiro, enquanto apertavam corpo contra corpo sem poder com isso evitar o final. Os patifes, por seu lado, edificavam casas com o dividendo do roubo e acreditaram que ninguém nunca detectaria seus desfalques. Hoje, no hospital se investiga os responsáveis atrás de uma barreira policial para que os curiosos não se aproximem. Não fizeram imagens, porém me atormenta a ideia de quanto estes pacientes chegaram a se parecer, em seu desamparo, àqueles rostos das fotografias do passado.

 

Imagenes tiradas de: http://cubalagrannacion.wordpress.com/2010/01/17/el-hospital-de-dementes-de-mazorra/

 

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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