Desemprego juvenil

Certas obstinadas estatísticas jamais são exibidas nos meios de difusão; além disso, são escondidas apesar de sua alta incidência. Junto ao número de suicídios, abortos e divórcios esconde-se também a cifra real dos desempregados. Os noticiários e os cartazes querem fazer-nos acreditar que habitamos uma sociedade onde todos têm a oportunidade de encontrar um trabalho e os desvinculados o são pela sua inclinação pela vagabundagem. Tantos braços sem produzir apontam, todavia, a essência de um sistema que converteu o trabalho somente em aparência e o salário numa brincadeira de mau gosto.

Faz uns dias, um curto programa de televisão abordou o tema do desemprego juvenil, porém sem mencionar o número dos atuais desempregados. Havana, às dez da manhã de um dia de semana, é a melhor amostra de quantos não tem um trabalho para ganhar a vida. Os parques, as aceras e cada esquina, repletos de gente em horário de trabalho, tornam-se mais confiáveis que os baixos índices de desocupação dos anuários estatísticos. Para a cautelosa especialista que falou frente às câmeras, muitos jovens têm uma falsa percepção de suas potencialidades e por isso não aceitam certos empregos. Sua frase foi seguida de uma entrevista na faculdade de estudos sócio-culturais da província Granma, onde os recém-formados se queixavam das vagas de “limpa-pisos” ou de inspetor de mosquitos que lhes haviam sido designadas.

Tantos malabarismos verbais para não reconhecer que enquanto os salários continuarem baixos, os jovens não se verão motivados para trabalhar. Não se trata de apelar à abnegação ou convocá-los para salvar a Pátria com seu esforço diário, senão de pagar-lhes uma quantia numa moeda que lhes permita levar uma vida decente. O projetado “homem novo” não é tão diferente do resto dos humanos: quer empregar seu tempo e sua energia em alguma coisa que resulte em prosperidade e bem estar. Isso não deveria ser tão difícil de entender pelos especialistas, nem tão sistematicamente ignorado pelas estatísticas.

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