Debaixo do guarda-chuva

Muitos de nós chegamos a acreditar que se não estamos debaixo de um guarda-chuva de uma entidade estatal, não existimos.Na porta de um ministério ou na frente da secretária de algum funcionário, há uma pergunta que sempre nos recebe: E você de onde é? Não se trata de curiosidade sobre nossa origem regional, senão de uma aguda pesquisa sobre a instituição que nos valida. Quando não se tem uma credencial com as abreviaturas de uma empresa estatal, pouco se pode fazer nessas dependencias oficiais. Os que são “cidadãos independentes” ou “indivíduos por conta própria” estão acostumados a longas esperas e a negativas.

Nesta peculiar condição de elétron livre, afastada do núcleo de qualquer privilégio, poder ou cargo importante, sou experiente em tropeços, especialista em trâmites que nunca se resolvem. Fizeram-me umas mil vezes a mesma pergunta sobre o guarda-chuva estatal que me protege, e prefiro consumir-me debaixo do sol da minha autonomia que abrigar-me debaixo de uma prerrogativa. Claro que esta filosofia da “não pertinência” não serve para explicar-me ao guardião nem para resolver algum despacho proibido.

Resulta que não existo, porque nenhuma entidade estatal me tem no inventário, porque não pago quota à um sindicato ou apareço na lista de algum refeitório operário. Ainda que caminhe, durma, ame e até me queixe, careço da fé de vida que me daria a filiação a um reduzido – e aborrecido – número de organizações neogovernamentais. Na prática, sou um fantasma cívico, um não-ser, alguem que não pode mostrar frente ao incisivo olho do porteiro nem a mínima prova de estar nos mecanismos oficiais.

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