Agradecimento e pedido

Não quero deixar passar os dias e seguir na ingratidão de não corresponder aos “abnegados companheiros” que vigiam a entrada de meu edifício. Eles, com seu sacrifício desmedido, conseguiram que nas últimas semanas não ocorrecem tanto vandalismo, tão comuns nesses quatorze andares. Não roubaram a roupa do varal de ninguem, nas escadas não encontramos nenhuma excrecência humana enfeitando uma esquina, nenhum exibicionista mostrou seu membro à alguma adolescente assustada; a mesa de dominó que gera tantos gritos foi suspensa até novo aviso e até os cães errantes tem evitado fazer das suas lá embaixo. Tudo isso graças aos turnos em rodízio que mantem os disciplinados membros do Ministério do Interior – para vigiar-me – no lobby do meu bloco de concreto.

Só queria, junto com meu agradecimento infinito, pedir-lhes por favor um pouco de vista grossa com os vendedores ilegais. Levamos a mesma quantidade de dias sem que ninguem – nem sequer um distribuidor de veneno contra baratas – anuncie sua mercadoria em nossos corredores. Sinto-me culpada da asfixia comercial a que estão submetidos os outros 143 apartamentos e algo tenho que fazer para aliviá-los. Assim é que peço – aos dissimulados soldados do MININT – olhar para o outro lado, quando se trata de comida. Isto não tem que chegar a ser o cêrco de Lisboa!

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