Reflexões

Nos dias de hoje, em que a moda é reflectir sobre os problemas dos outros e evitar o imediato e o que nos está próximo, propus-me tocar em outros temas fora do estreito marco da minha casa e da minha cidade. Pensei então nos aborígenes australianos discriminados no seu próprio país, nas dificuldades para reconstruir Nova Orleães, nas demandas dos sem terra do Brasil. No fim percebi que não posso escrever sobre nenhum destes assuntos e a razão é simples: dói-me um dente.

Já sei que parece que uma coisa não tem relação com a outra, mas tem. Enquanto o pulsar de dor me sobe pela bochecha e me chega até ao ouvido, não me consigo concentrar e reflectir noutra coisa que não sejam os meus próprios problemas. A terra dos cangurus dilui-se, o Superdome passa para segundo plano e as ordens agrárias apagam-se na distância. O dente continua a chamar-me para esta realidade.

As pulsadas de dor são maiores quando recordo os últimos dias perdidos na consulta de estomatologia. Uma das vezes por falta de água, outra por causa do compressor que estava partido e uma terceira porque não tinham papel para envolver os instrumentos no esterilizador; no final, o grito da recepcionista acabou com as minhas esperanças: “Não vamos dar mais consultas até ao próximo mês”. Tudo isto acontece na policlínica “19 de Abril” da Praza, que é apresentada como um exemplo às delegações estrangeiras que vêm de visita a Cuba. Quem sabe se algumas não viajarão desde as remotas terras australianas, ou desde as baixas planícies sulistas, ou do quente campo brasileiro.
Assim, pensei seriamente em sentar-me com a minha dor à porta à espera de um desses visitantes. Talvez possa visitar essa “outra policlínica” que lhes mostram a eles, situada exactamente no mesmo sítio da minha, mas onde as coisas funcionam e os pacientes sorriem satisfeitos.

Não será que o que as autoridades precisam.

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